A palavra esporte suscita diferentes memórias, porém, a probabilidade de encontrar  pessoas que não saibam o que é esporte é muito pequena. O esporte está presente na  vida das pessoas, em todas as raças e etnias, alcança todas as idades, existindo inúmeros  tipos e modalidades esportivas e, também, grande número de adeptos a sua prática e  como admiradores; o que o torna um fenômeno sociocultural.  

Comprovadamente, a prática do esporte favorece a sociabilidade, facilita a construção da  disciplina, foco, persistência, bem como estimula a cognição e as funções perceptivas,  além de proporcionar melhor consciência de corpo e preparo físico, contribuindo para a  saúde física e mental.  

Encontramos praticantes de esportes como recreação e como profissão, estando nesta  categoria o esporte de alto rendimento. Segundo Corrêa (2002), “Motivação, auto rendimento, liderança, conquistas, grupos, bem-estar psicológico, violência, pensamentos  

e sentimentos de atletas são temas que envolvem este fantástico cenário e que vem se  tornando um campo de atuação importante para os psicólogos” (p.203).  

Historicamente, a Psicologia do Esporte surgiu no final do século XIX. Com pesquisas em  psicofisiologia no esporte, a União Soviética foi o país que iniciou o uso de métodos e  técnicas psicológicas voltadas para performance, e nos Estados Unidos surgiram as  pesquisas e os laboratórios em Psicologia esportiva. Desta data até o presente, a  Psicologia do Esporte teve um grande crescimento, passando a ser reconhecida em todos  os continentes “como profissão e como área de concentração acadêmica” (p.205).  

No Brasil, a Psicologia do Esporte teve seu início na década de 50, no São Paulo Futebol  Clube, com o psicólogo Carvalhaes, que acompanhou a seleção brasileira de futebol,  campeã da Copa de 1958, trabalhou com juízes na Federação Paulista de Futebol e  escreveu “Psicologia do Futebol” em 1974. Tivemos ainda outros psicólogos que se  notabilizaram e contribuíram para o crescimento da Psicologia do Esporte, como Athayde  Ribeiro da Silva, psicólogo, publicou “Futebol e Psicologia” e representou o Brasil no  Congresso de fundação da Sociedade Internacional de Psicologia do Esporte.  

O psicólogo Mauro Lopes de Almeida, em São Paulo. A psicóloga Eliane Abdo, que  organizou o Centro de Preparação Psicológica no E.C. Pinheiros, com psicólogos para  várias modalidades, realizando psicodiagnóstico esportivo e suporte psicológico a atletas.  E a psicóloga Regina Brandão, reconhecida por seu trabalho com a seleção de voleibol  masculina, que conquistou a medalha de ouro nas Olimpíadas.  

Neste percurso, vários clubes passaram a contratar psicólogos e tivemos ainda, a criação  do laboratório de Psicologia do Esporte na Universidade Federal de Minas Gerais e a  Psicologia do Esporte foi incluída no currículo de muitas Faculdades de Psicologia. Em  2007, o Conselho Federal de Psicologia, em sua resolução CFP N.º 013/2007 regulamenta  a concessão do título de especialista, reconhece e descreve a atividade do especialista em  Psicologia do Esporte.  

Embora toda abrangência e evolução da Psicologia do Esporte, até hoje a inserção da (o)  psicóloga(o) neste campo ainda enfrenta resistência, segundo Cristiano Barreira,  presidente da Abrapesp. Isto se dá nas categorias profissionais, no que diz respeito a  questões político-institucionais, de formação e cultura de dirigentes e técnicas(os) e da  compreensão que têm em relação ao que é a Psicologia do Esporte, à presença e ao  trabalho da (o) psicóloga(o).  

Também é necessário lembrar o caráter cultural que envolve a atividade esportiva. Embora  os ganhos em saúde e qualidade de vida que o esporte proporciona, poucos se beneficiam  dele. A percepção coletiva de esporte, no Brasil, se configura como uma grande paixão  que está fortemente associada a competição com foco na vitória, com estímulo acentuado  dos meios de comunicação de massa e com uma postura capitalista, promovendo e  estimulando forte admiração e suposta supremacia daquele que vence, o transformando  em herói. E pelo abandono a aquele que perde, o que pode influenciar negativamente a  ambos no aspecto psicológico, por distanciarem-se da auto percepção, existindo aí a  necessidade de intervenção da Psicologia.  

Durante quase um mês assistimos ansiosos aos Jogos em Tóquio (2021), uma Olimpíada  marcada por falta de público, mas cheia de esperança por vitórias e por um mundo melhor.  Cada nação junto a seus atletas puderam viver, de suas casas, o sonho a ser conquistado.  Por outro lado, tem os atletas que desafiaram o impossível em busca de seu melhor  desempenho, da conquista por uma medalha no peito, por uma realização pessoal  marcada muitas vezes por uma competição interna, e outros que sentiram a dor e a  frustração da perda e até da desistência em competições. E como lidar com tudo isso?  Como lidar com tantas emoções e, ao mesmo tempo, ter que manter a racionalidade e a  concentração?  

Nas Olimpíadas, diversos atletas viveram a emoção e o sofrimento psíquico por estar ali,  mas conseguiram enfrentar o preconceito e falar sobre o assunto, exemplo da ginasta  Simone Biles e a tenista Naomi Osaka. Porém, o que a maioria pensa é que a vida do  atleta é perfeita, ignorando o quanto de dedicação e renúncia existe naquele cotidiano,  aspecto que contribui para ampliação do sofrimento. 

Sofrimento que não existe apenas nos atletas de alto rendimento, o apelo a “aparência  perfeita”, a busca de corpo masculino e feminino ideal, a luta para “retardar” o  envelhecimento também levam a práticas restritivas com alta exigência de performance e 

semelhante nível de sofrimento, levando ao adoecimento psíquico pela busca incessante e  a dificuldade de lidar com as frustrações.  

Frades e cols, 2020 falam sobre o adoecimento no esporte, especificamente, “a depressão  no esporte advém de vários fatores que levam esses atletas ao adoecimento. As causas  mais comuns da depressão nos atletas são: personalidade do atleta, ansiedade, baixa  auto-estima, fracasso, lesão física, mudanças de comportamento, auto-cobrança,  problemas afetivos, perda de prestígio ou da posição de titular, baixo rendimento, dentre  outras causas” (p.09).  

Embora o treino de habilidades psicológicas seja uma prática aplicada há algum tempo  com atletas, as evidências indicam a necessidade de aprimoramento desses treinos,  principalmente, considerando que as pressões por resultados são cada vez maiores. Após  cada vitória ou alcance de meta, cria-se a expectativa por melhores resultados de forma  cumulativa, vistos como naturais pela população, porém, com efeito psicológico desastroso  nos atletas que têm como cotidiano a busca de superação dos próprios limites.  

Além da intervenção nas habilidades psicológicas, também é necessária a mudança na  percepção cultural que se tem do esporte, com a compreensão do valor da participação  independente da classificação e medalhas obtidas, e o reconhecimento da dedicação do  atleta em seu preparo para aquela prova, qualquer que seja o resultado. Tarefa da  Psicologia do Esporte em sua transversalidade.  

Autoras: Lígia Maria Duque Johnson de Assis, professora do curso de Psicologia da  Faculdade Santa Teresa. Juliana Coutinho Borges, coordenadora do curso de Psicologia  da Faculdade Santa Teresa 

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